Curso de Treinamento de F. M. Alexander: Os Últimos Anos

Tony Spawforth
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Amigos e colegas de profissão – estar aqui causa uma sensação curiosa. Eu estive presente em quase todas as palestras em homenagem a Alexander nos últimos trinta anos, mas sempre estive certo de uma coisa: que eu nunca seria o palestrante. Dar palestras não era meu ponto forte. Mas quando fui convidado para dar a palestra de 1997, não pude inibir e dizer não, e aqui estou. No entanto, estou seguindo a minha decisão de não dar uma palestra formal. Ao invés disso, este discurso será sobre minhas memórias da convivência e do aprendizado com Alexander. Eventos memoráveis ocorridos nos anos 50 quando eu estava fazendo o curso de treinamento de Alexander, nos dois últimos anos antes dele passar para a responsabilidade de Walter Carrington. Este período foi de fevereiro de 1951 ao verão de 1953.

 

A primeira vez que ouvi falar sobre a Técnica Alexander foi através de um velho amigo dos tempos de escola, Edward Owen, que era um jornalista bem sucedido, e também acidentalmente editor dos 3 primeiros Alexander Journal. Ele tinha muito interesse nas idéias de Aldous Huxley e Gerald Heard, sobre auto-conhecimento e expansão da consciência, entre outras coisas. Ele começou a fazer exercícios respiratórios de yoga, os quais lhe causaram muitos problemas. Ele descobriu que às vezes entrava em um estado involuntário de quase transe sem nenhum sinal prévio. Um dia nós estávamos andando pela Regent Street aqui em Londres, quando ele de repente me pediu: “Por favor, me dê um tapa no rosto, eu acho que estou entrando em transe”. Eu obedeci, devo admitir que até com um certo prazer, e ele voltou a si!

 

Ele decidiu então ir à procura de ajuda, e procurou Alexander, sobre quem provavelmente ouvira falar através da leitura de Ends end Means, que Huxley escrevera após suas aulas com Alexander. As aulas que Edward teve resolveram seu problema, e ele começou a dizer que eu deveria ter algumas aulas. Eu era um cara tímido, do tipo intelectual, com pouca auto-confiança, e ele achou que as aulas me ajudariam. Eu lhe respondi dizendo que alguém ter lhe mostrado a maneira correta de sentar-se e de levantar-se de uma cadeira pode tê-lo ajudado com seus problemas, mas que eu não tinha problemas em me sentar ou me levantar de cadeiras! Parecia ser muito dinheiro para se gastar em uma possível ajuda para mim.

 

Entretanto, algo do que ele falou deve ter me marcado (eu cheguei a ler um dos livros de Alexander) e acabei por marcar aulas com o falecido Charles Neil e com Eric de Peyer, no Isobel Cripps Centre, em Lansdowne Road, número 18. Alexander considerava, vim a saber mais tarde, que Charles Neil se afastara dos princípios de seu trabalho, o que eu posteriormente pude ver que era verdade. De qualquer forma, lhe sou grato por ter indiretamente me proporcionado uma experiência que me inspirou a procurar o curso de treinamento de Alexander. Esta foi o que eu chamo de uma experiência parecida com “Scott, preparar teleporte” da série de TV Jornada nas Estrelas. Em um momento eu estou sentado na cadeira, e no momento seguinte estou de pé – sem esforço. Por alguns dias eu só conseguia pensar nessa experiência.

 

Cerca de um ano mais tarde, tendo recebido uma pequena herança de minha avó, eu me inscrevi para tentar uma vaga no curso de treinamento de F.M. (como agora o chamo quando penso nele).

 

Ele me entrevistou num dia bem frio de fevereiro de 1951. Eu estava extremamente nervoso, mas ele imediatamente me deixou à vontade, apertando minha mão e me dizendo para sentar. Sua sala tinha uma lareira com um fogo brilhante, e como Goddard Binkley conta em seu livro The Expanded Self , dava uma impressão de calma e atemporalidade. Em seguida, F.M. me perguntou se eu sabia por que eu viera vê-lo. “Na verdade não”, eu disse. Aparentemente eu estava lá para tentar entrar em seu curso de treinamento, mas eu tinha apenas idéias vagas sobre querer ajudar aos outros, e não tinha noção do quanto isto dependeria de mim e de meu estado psico-físico. Ele então escutou meu peito e perguntou-me se eu já sofrera de algum problema pulmonar. Quando tinha 12 anos de idade eu tinha uma tosse terrível com congestão de um pulmão, e ele observou que um de meus pulmões não estava expandindo tanto quanto o outro. Ele também sentiu embaixo do meu joelho e disse: “Terrível tensão aí para um homem de sua idade (31).” Eu, é claro, não percebia aquela tensão. Ele então me mostrou suas mãos e disse: “Colocar suas mãos em outra pessoa é o mais forte estímulo que você pode lhe fornecer, seja para melhor ou para pior.” Alexander terminou dizendo que eu deveria ir e pensar seriamente sobre a responsabilidade que eu estaria assumindo se eu me envolvesse com seu curso de treinamento.

 

Pouco tempo após minha entrevista com F.M., seu secretário, John Skinner, escreveu me para dizer que ele concordara que eu fizesse seu curso de treinamento. Ele também concordou que eu comparecesse somente no período da tarde durante o primeiro ano. Eu precisava trabalhar pelas manhãs para ajudar com as despesas. Nesta época, F.M. só ensinava aos alunos à tarde, e mais tarde Walter Carrington me disse que eu não agüentaria mesmo uma carga diária maior de trabalho, já que eu precisava mudar tanto. Assim foi, eu logo fiquei muito cansado, e após as aulas só conseguia pensar em descansar. No curso ensinavam F.M. e seus professores assistente Walter Carrington, Max Alexander e eventualmente Peter Scott. F.M. chegava, nós nos dávamos boa tarde e ele começava a trabalhar conosco, um por vez. Havia dez alunos naquela época, e, que eu me lembre, os únicos que se tornaram professores fomos eu, Peggy Williams, Bill Williams e Rom Bell. Havia um aluno australiano um pouco estranho que tinha alguma coisa contra a Inglaterra. O que o motivou a se tornar professor da Técnica foi o fato que “o cliente estava sempre errado”. Ele criticava F.M. por não nos ensinar os ‘truques do ofício’. É claro que nunca na frente do próprio, somente quando estava comigo e com os outros alunos. Tudo muito patético. Logo ele deixou o curso de treinamento.

 

O trabalho de F.M. conosco envolvia o uso de sua impressionante habilidade e experiência para nos liberar, deixar a nossa respiração fluir (“Deixe as costelas contraírem”) e então sentar-nos ou levantar-nos da cadeira ou mover-nos para a frente e para trás na cadeira. Seu trabalho conosco sempre era direcionado para um subsequente movimento. Ele não falava muito, mas nós podíamos, é claro, fazer perguntas.

 

Eu espero que as seguintes situações lhes soem de alguma forma familiares, embora, é evidente, elas tenham sido minhas experiências, e não suas. Estou apresentando estas situações sob a forma de um diário, mas como eu não mantinha diário, elas não seguem necessariamente uma ordem cronológica.

 

Estas experiências do curso de treinamento poderiam ser melhor descritas como seminais, quer dizer, experiências que formam uma base para crescimento e desenvolvimento futuros. Como eu disse mais cedo, minha memória mais forte deste primeiro ano era de cansaço e de tentar desesperadamente estar certo, o que naturalmente causava um esgotamento ainda maior.

 

CANSAÇO
Eu cheguei na aula um dia sentindo-me extremamente cansado e pensei que este seria o meu pior dia. Para minha surpresa, este foi um dos meus melhores dias. Eu tinha desistido de tentar, mas não tinha desistido!

 

SEM INIBIÇÃO
Foi pouco antes de eu ter desistido de tentar fazer o certo tão intensamente que eu tive a experiência de F.M. não conseguir me tirar da cadeira sem que eu pulasse de pé quatro ou cinco vezes. No fim, ele deu um passo para trás e disse: “Olhe só! Você não passa de um robô. Eu não tenho tempo para você”, e se encaminhou para o próximo aluno. Embora esta tenha sido uma experiência que me abalou, eu precisava que alguém me dissesse o quão automaticamente eu estava agindo, e no dia seguinte ele trabalhou comigo como se nada tivesse acontecido. A impressão causada por esta situação se fez sentir pelo menos por uma semana. Mais tarde percebi que tive uma experiência semelhante à de um dos eminentes alunos atores de F.M. , Matheson Lang, mas em seu caso, lhe foi mostrado o caminho da porta após ele ter pulado de pé várias vezes. Acho que ele estava ensaiando uma nova peça, e sua mente não estava concentrada no que Alexander lhe pedia. Eventualmente ele acabou se tornando um aluno muito bom, e usava a técnica no palco. Algum tempo depois eu quase repeti a experiência de pular de pé, mas consegui inibir e tudo correu bem. Eu havia adquirido um pouco de controle consciente!

 

CABEÇA LIDERANDO – CORPO SEGUINDO
Um certo dia eu tive a experiência intensa de ser puxado da cadeira por minha cabeça. F.M. tinha apenas suas mãos em meu tronco o tempo todo. Eu mencionei esta experiência para Max Alexander e ele disse: “Dê graças a Deus pela experiência, mas não tente repeti-la você mesmo”.

 

DISTRAÍDO
Cheguei na aula com a sensação de que minha cabeça estava vazia. Eu formulava as direções verbais, mas nada chegava a se conectar. Os professores foram compreensivos comigo e logo esta sensação passou. De certa forma eu pude perceber que direção deve ser um fluxo constante de energia, e não somente um mantra ou um mero procedimento verbal.

 

MUITO DEVAGAR
Eu estava de pé ao lado de uma cadeira quando F.M. chegou na aula da tarde. Ele disse: “Venha, Anthony, sente-se”. Entrei em pânico, pois ele nunca tinha feito isso antes. Após o que para mim pareceu um século de inibição e direção eu me sentei. “Não foi mal”, ele disse, “mas você levou bastante tempo pra fazer”.

 

COITADO…
F.M. disse sobre mim (para Walter, eu acho) : “Coitado, ele tem séculos de hábito contra ele”.

 

EMOÇÃO
Após um dia frustrante de aula fui tomar um chá com Bill Williams num Café Lyons local. “Sabe”, eu disse, “eu queria nunca ter ouvido falar dessa maldita Técnica”. Bill explodiu numa gargalhada e disse: “Esta é a primeira vez em que ouço você expressar uma emoção verdadeira”.

 

PENSANDO MAIS
Hoje F.M. me chamou em um canto e me disse em um tom paternal: “Anthony, você mudou bastante nestes últimos meses, mas nós gostaríamos de ver você pensando mais.

 

PONTO DE MUDANÇA
A melhor de todas as minhas experiências aconteceu no meu segundo ano. F.M. estava trabalhando comigo, e estava conseguindo um alongamento e alargamento espantoso nas minhas costas. Mais do que eu jamais experimentara antes. Ele disse: “Anthony, permita-se uma ótima experiência”. Ele me tirou da cadeira de uma maneira algo flutuante. Eu saí da aula sentindo como se pudesse dominar o mundo se fosse necessário – até mesmo o campeão Muhammad Ali ! Não era um sentimento agressivo, era uma sensação de imensa vitalidade. A experiência durou por aproximadamente um mês. Eu sentia que meus olhos estavam abertos pela primeira vez na minha vida e que era maravilhoso estar vivo.

 

Experiências marcantes como essa são maravilhosas, mas elas não duram nem podem durar muito. Tudo é mudança, crescimento e desenvolvimento. Nada permanece inalterado : mais mudanças e retrocessos pela frente! Nós nunca esquecemos estas experiências, elas se tornam parte de nossas vidas e são realmente seminais. F.M. diz que em algum ponto o processo de aprendizado deveria ter uma proporção de nove experiências boas para uma ruim, ao invés do contrário.

 

RESPIRAÇÃO
Uma pergunta para Walter Carrington : “Minha respiração parece ter me dominado; eu não posso parar de respirar, o que está errado?” “Não se preocupe”, ele respondeu, “é uma forma de interferência”. A sensação só permaneceu por pouco tempo, mas foi uma experiência muito estranha.

 

NA MESA
Eu estava deitado na mesa perto da porta quando F.M. entrou e começou a trabalhar. Para minha surpresa, ele segurou minha cabeça por um breve momento e então pediu para que eu estendesse uma perna na mesa. Eu comecei a fazê-lo, e ele imediatamente disse: “Pare.” Eu não tinha pensado. Em seguida ele mexeu em meu joelho e minhas costelas e disse: “Agora, abaixe-a”. A mudança foi dramática: minha perna pareceu mover-se por vontade própria. É claro que eu havia inibido e direcionado, e a coisa certa se fez. Ele fez um movimento de aprovação com sua cabeça e começou a trabalhar com o próximo aluno. Pelo que eu me lembro, esta foi a única vez em que ele trabalhou com algum de nós na mesa. Mover a perna enquanto deitado na posição semi-supina é um processo muito instrutivo, e vale muito a pena explorá-lo se você nunca o experimentou.

 

SENTIMENTO
Alguma hora F.M. disse que nós deveríamos ter prazer até nas mais simples de nossas atividades diárias. Isto foi bem ilustrado por uma das atividades de meu trabalho em meio expediente como pesquisador técnico para um agente de patentes. Eu tinha que puxar pesados volumes de especificações de patentes de prateleiras altas e pegá-los antes de colocá-los em uma mesa para lê-los. Eu sempre encarava isso como uma tarefa, mas um dia eu me descobri tendo prazer nesta ação simples pela primeira vez.

 

A última vez que vi F.M. foi no corredor em Ashley Place. Ele acabara de subir do porão com a senhora Margareth Goldie. Ele olhou para mim e disse: “Você está com uma aparência ótima, meu jovem”, e eu lhe disse: “Você também, F.M.” Nós sorrimos e cada um seguiu em sua direção. Uma semana mais tarde ele estava morto.

 

MEUS PRÓPRIOS PENSAMENTOS
Minhas experiências com o ensino fizeram me ver que a Técnica Alexander envolve o capacitação do indivíduo através da prática de inibição consciente e direção na atividade. A compreensão desta prática vem através das experiências seminais vivenciadas no treinamento, ao ensinar, ao ir a cursos de desenvolvimento profissional e ao trabalhar com outros professores. Ensinar a Técnica não é sobre obter resultados, não importa o quão satisfatórios e marcantes eles possam ser para os alunos e professores. Durante a aula particular de um aluno F.M. estava criticando o falecido Charles Neil (a quem o aluno fizera menção) por ter se desviado dos princípios da Técnica. “Mas Sr. Alexander”, disse o aluno, “ele obtém resultados tão maravilhosos”. “Bem, aí está”, disse Alexander, “ele não pode estar ensinando a minha Técnica!”

 

Recentemente eu vi o seguinte parágrafo no livro de Joan e Alex Murray chamado ‘Beginning from the Beginning’ (sobre os Procedimentos Dart) que põe em palavras o que eu vinha pensando há um longo tempo: “Alexander aprimorava continuamente sua maneira de ensinar. Ele descobriu que não existiam palavras para o que ele queria transmitir. Se as pessoas não passassem pessoalmente pela experiência as palavras não fariam sentido. Então ele parou de falar para proporcionar a experiência – para deixar você explicar para si mesmo. Ele possibilitou que cada aluno explicasse pessoalmente, o que é que isto realmente é. Você explica para si mesmo. Suas explicações são para você mesmo, não são para mais ninguém, já que cada um de nós vem com uma bagagem diferente.”

 

Quase terminando, eu gostaria de prestar uma homenagem a F.M. e seu trabalho, que me possibilitou ter uma vida que sem ele eu nunca teria. Assim como com Goddard Binkley, ele “expandiu” meu “self ”. Eu também gostaria de fazer uma homenagem a Walter Carrington por todo o apoio que ele deu a todos nós jovens professores e alunos ao nos encorajar a começar a ensinar e por nos oferecer ajuda permanente quando nós realmente começamos.

 

Agora eu vou terminar com uma estória sobre o poder e a importancia do sorriso quando praticando o exercício vocal “Ah”sussurrado.

 

Em um programa sobre a natureza do humor, o polivalente Dr. Jonathan Miller deu um exemplo maravilhoso sobre o efeito de um sorriso verdadeiro em pacientes vítimas de derrame. Em um videoclip, foi pedido a um homem que sofrera um derrame que lhe afetara o lado esquerdo do corpo (incluindo seu rosto) que esboçasse um sorriso, mas ele só conseguiu fazer uma careta. O entrevistador então disse: “Agora, John, qual é a diferença entre um Poodle fazendo xixi na sua perna e um Rotweiller fazendo xixi na sua perna?”. “Eu não sei”, disse John. O entrevistador disse então: “Bem, é que você deixa o Rotweiller terminar!” Então uma transformação impressionante aconteceu. John sorriu um sorriso maravilhoso com os dois lados de seu rosto. Enquanto Dr. Miller (que já fora neurologista) dizia, “O humor provocou um efeito no sistema neuro-muscular que a vontade não conseguiu”.

 

Obrigado a vocês por terem sido uma platéia tão maravilhosa, e boa sorte a todos, de qualquer direção que vocês tenham vindo e para qualquer direção que estejam indo.

 

Nota do autor
Ao passar minha palestra para a forma escrita eu fiz, por necessidade e para uma melhor clareza, algumas pequenas alterações e correções. Peço desculpas pelo uso dos pontos de exclamação, mas eles algumas horas são bem úteis para indicar mudanças na voz que não são facilmente expressas pelo texto escrito.

 

Palestra em Homenagem a F. M. Alexander apresentada no Regent’s College, em Londres, no dia 12 de julho de 1997.
Título original: F. M. Alexander’s training course: the last years, extraído do Alexander Journal, n.16, spring 1999.
Tradução: Rafael Reif
Revisão: Roberto Reveilleau

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